Engraçado como o povo brasileiro pode ser tão controverso. Embora sejamos tolerantes com o outro e, especialmente, com os diferentes e com as minorias (mas isso sem tratar dos atuais casos de ataques homofóbicos que chocam de tão imbecis) também sempre damos um jeitinho de usar toda nossa malandragem em nosso favor sem sequer pensar nas toleradas minorias e diferentes.
Em estado interessante (sim, estou grávida) tenho percebido bastante como as pessoas não conseguem respeitar muito bem certos direitos. Acham que é benefício demais. Quem não reclama, por exemplo, de fila preferencial no banco ou em outro local? E quem não senta no banco reservado do ônibus ou do metrô?
Como usuária diária do transporte público, tenho mais que notado isso; tenho causado situações bem atípicas. Como defensora dos direitos para todos, me considero uma boa cobradora pelos meus direitos e eis que barriguda tenho visto muitas coisas.
Na área preferencial
Na estação Barra Funda do metrô – assim como em algumas outras – existe o primeiro vagão reservado aos preferenciais em horários de pico, mas todo dia alguém tenta passar pela área que já está reservada. Há algum tempo os jovens que cuidavam da área não faziam muita distinção e todo mundo acabava atravessando/invadindo a área. Em suma, desrespeitando direitos. Eu pensei em reclamar um dia e no dia seguinte (antes que eu pudesse reclamar) a área estava efetivamente vigiada e protegida dos malandros.
Achei aquilo digno e muito justo com idosos, deficientes, pessoas com crianças de colo e gestantes. Afinal, aquela área é somente naquele horário reservada para eles.
Ainda assim – com área isolada e funcionários do metrô barrando e “conferindo” devidamente as pessoas que entram na área – ainda vejo todo dia pessoas não preferenciais tentando usar aquele vagão, que fica mais vazio. Todos os dias os funcionários perguntam a centenas de pessoas se elas são preferenciais ou avisam que ele não pode adentrar ali, pois não é gestante, deficiente, idoso ou não está com uma criança de colo.
Os assentos preferenciais
Acho um absurdo estas pessoas não respeitarem os direitos, mas os casos piores ainda estão nos usuários de assentos preferenciais.
Além de ter muita gente que senta neles ainda tem aqueles que, pior ainda, fingem estar dormindo só para não ceder lugar. Nestas horas é que eu penso: cadê o respeito? Cadê a tolerância? Foram embora e deram lugar à malandragem, definitivamente.
Barriguda, ultimamente, não tenho deixado nada passar. E ando até me especializando na arte de exigir meu direito. Há dias em que basta eu encostar perto do local preferencial para que me cedam o lugar. Mas, infelizmente, há dias que eu ainda preciso apontar para o lugar ou então verbalizar.
Hoje, pior que isso, tive que cutucar um homem e pedir licença. Ele, desconcertado no meio do ônibus cheio, me pediu desculpas três vezes e dizia que não tinha me visto.
Em volta, outras pessoas também sentiram um certo desconforto – incluindo a outra ocupante do assento preferencial e que de preferencial não tinha nada. Diante do desconforto ela me perguntou de quantos meses eu estava e iniciou-se um papinho meio besta dela e de um outra menina que estava de pé comigo acerca de minha barriga, da gravidez, do sexo de bebê e do nome escolhido.
O que falta?
Diante das situações que tenho notado e vivido me pergunto veementemente o que falta pro brasileiro entender e respeitar direitos. Monto teses e bolo teorias, mas juro que realmente gostaria de entender como podemos ser tão complexos e dicotômicos.
Por vezes acho que falta educação básica – daquela dada na escola mesmo -; em outras acredito que seja algum traço cultural nosso que está intricado no DNA e não muda; já culpei a falta de informação e formação dos meios de comunicação, mas não consigo encontrar o culpado.
Pode ser que seja tudo isso junto, mas eu queria não só encontrar o culpado como achar a solução deste problema. Por isso, espero que minha atitude de tirar não preferenciais dos assentos reservados possa levar o ocupante e as pessoas em volta a alguma conscientização ou reflexão acerca do outro e dos direitos.
É um pequeno gesto, mas é o que eu posso fazer dentro do espaço público e junto das pessoas. O resto eu tento fazer por aqui – que embora seja público não está tão próximo da realidade.
Escrito por Adriana Franco

