Precisamos falar sobre aborto

27 nov

Ser a favor do aborto não quer dizer que vou fazer um. Ser a favor do aborto não quer dizer que todas as mulheres farão, devem fazer ou serão obrigadas a fazê-lo. Ser a favor do aborto quer dizer tão somente que quem optar por fazê-lo – e seja lá por qual motivo for – poderá realizá-lo em segurança e com condições dignas para que não morra em decorrência deste procedimento médico.

Para mim, ser a favor do aborto quer dizer ter menos crianças no mundo vivendo em condições de desamor ou desamparo; em abrigos ou abandonadas esperando que um outro alguém queira adotá-lo e amá-lo como quem o pariu não fez porque não queria e não teve opções de evitá-lo ou não conseguiu por N motivos. Ser a favor do aborto, para mim, é dar à mulher a opção de escolha entre gerar uma vida não desejada ou seguir sua vida sem carregar este peso por nove meses, pelo resto da vida ou, como acontece, ter sua vida interrompida porque decidiu interromper a gestação em situações que não são hoje adequadas e suficientes. Para mim, ser a favor do aborto é amparar esta mulher não somente em sua decisão como dar condições de que esta decisão seja levada adiante com o apoio médico necessário e também com todo o apoio psicológico que a situação requer. Ser a favor do aborto, para mim, é uma questão de saúde pública, de direito humano da mulher, de opção e opinião individual e não interfere na vida de mais ninguém.

Muitas pessoas se posicionam contra por diversos motivos e, principalmente, os religiosos. Então, pergunto: é melhor uma mulher morrer ou abortar? É melhor uma criança a menos no mundo ou uma criança nascer com sérios problemas devido aos abortos insucedidos? É melhor ter uma criança a menos no mundo ou uma criança a mais, mal amada e sem o apoio e atenção necessários? É melhor uma mulher feliz ou levando uma gravidez indesejada e gerando uma criança infeliz e traumatizada desde a gestação? É melhor uma sociedade promotora dos direitos humanos e respeitando a opinião individual e decisão de cada uma ou impondo que mulheres morram, corram risco de vida e sejam frustradas? É melhor garantir ou se omitir?

Claramente o ideal seria que as gravidezes fossem então evitadas desde o início, mas esta não pode ser a única opção. Não podemos deixar que mulheres com menos condições sociais e econômicas estejam mais sujeitas a sofrerem com a falta de políticas públicas eficientes e que as garantam, ao menos, poder de decisão do que as mulheres que possuem mais condições e, com isso, possam recorrer a abortos em clínicas mais preparadas e com mais condições ou que recorram a abortos em países que os autorize enquanto a maioria da população sofre com o descaso do poder público por considerar opiniões religiosas. O Estado deve ser laico (ou seja, não deve ser intervisto por regras e preceitos religiosos) e, no meu entender, deve ser promotor de direitos.

Por que a mulher não pode ter o direito sobre seu próprio corpo quando o assunto é gravidez e reprodução, mas tem direito sobre seu próprio corpo quando o assunto é plástica ou qualquer outra intervenção médica/estética? O direito ao corpo é individual e deve ser sempre respeitado.

Por vezes nos vemos criticando práticas internacionais que afetam mulheres ao redor do mundo e estão ligadas a uma cultura que não nos pertence, mas pouco questionamos sobre as próprias práticas. Enquanto apontamos o dedo para os mulçumanos de esconder suas mulheres sob véus e dos africanos e asiáticos em praticar mutilação genital fechamos os olhos para nossas próprias práticas arraigadas em argumentos ultrapassados e tão ligados à cultura, tradição e religião quanto eles fazem. Não acredito que obrigar o uso de véu ou mutilar mulheres seja algo positivo ou válido em qualquer cultura, mas tão pouco acredito que obrigar mulheres a gerar e parir por motivos religiosos seja de alguma forma válida somente por estar ligada à nossa cultura/tradição.

Se precisamos avançar em muitas questões culturais ultrapassando as barreiras impostas pela tradição e pelos bons costumes, precisamos também falar sobre o aborto. Você não precisa concordar com a prática e tão pouco precisa praticá-lo, precisamos apenas considerar a opinião de cada uma, respeitá-las e, principalmente, dar condições para que quem deseja possa realizá-lo em condições. E aí, vamos falar sobre aborto?

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5 Respostas to “Precisamos falar sobre aborto”

  1. priscila.araujo94@ig.com.br 05/12/2014 às 15:30 #

    Olá,

    Fiquei muito contente por existirem pessoas com coragem de explanarem opiniões sobre assuntos tidos como tabus , coragem de revelar aquilo que nossa sociedade acha melhor deixar obscuros, ou seja alguns posicionamentos políticos e jurídicos baseados em uma moral e uma ética fundamentada em ideologias machistas e religiosas.

    Cara autora, em alguns pontos nos divergimos, entretanto como dizia John Locke “_posso discordar de suas ideias mas lutarei até a morte por seu direito de dize-las”, _porém não posso deixar de lhe convidar á debruçar sobre algumas meditações pessoais que obtive sobre tal assunto abordado :

    Seu artigo me instigou a pesquisar mais sobre o assunto relatado antes de decidir em que polo de opiniões, tão opostas, deveria advogar em defesa. Investigando me deparei que certos assuntos são frequentemente trazidos em pauta, não somente pelas ditas feministas, mas em toda roda de mulheres – isto é , assuntos questionados em todo universo feminino e gerações.

    No decorrer na história estudamos sobre povos, raças,culturas, regiões, religiões, e determinados grupos serem oprimidos, discriminados, violados massacrados por uma política-ideológica-ditatorial, mas também vemos estes povos se libertando, como por exemplo os franceses e a ” declaração dos direitos humanos “. Mas no caso das mulheres por mais que existam leis e até mesmo seja comemorado o dia internacional das mulheres com presentes e propagandas comoventes, vejo uma conquista mais sexual e publicitária, porém não no que toca na liberdade totalizada da mulher, mais que o aborto minha cara, devemos questionar os critérios de uma laqueadura que é preciso ser casada, ter no mínimo dois filhos e ser acima de 25 anos de idade. Ai me questiono aonde se encontra minhas liberdades garantidas na constituição federal e declaradas na Declaração dos Direitos Humanos, uma mulher que possui maioridade penal e capacidade civil pode decidir por uma nação ( o voto), pode se prostituir, pode responder penalmente, mas não pode decidir por seu corpo, pois segundos os moralistas religiosos a mulher nasceu para procriar e cuidar da prole.

    Meus caros do jornal social, não tenho conhecimento médico, econômico e político para debater como os senhores jornalistas, sou apenas uma jovem de 20 anos lutando para não trancar sua faculdade tão sonhada correndo atrás de qualquer serviço, mas não me fecharei em mundo enquanto ocorrer aberrações como estas e mais horrendo ainda é certos atos serem tratados como comum, mas mesmo assim sinto-me no direito de quando vejo pessoas que usam palavra como armas de desmascaramento, colocando nós leitores em uma zona de desconforto, obrigando-nos a refletir. Sinto na obrigação de responder dando meus parabéns pela iniciativa.

    Parabéns á autora do texto e a todos do Jornal Social.

    Cordialmente, Priscila Santos Araujo

    • Didi 05/12/2014 às 17:12 #

      Olá Priscila, muito obrigada pelo elogio e pela sua contribuição.
      Acredito que se o texto a levou à reflexão e aos comentários deste blog, minha missão foi cumprida com muito sucesso.
      A ideia do jornalismo social como um todo é suscitar o debate, levar à discussão para todas as esferas e principalmente trazer à tona questões tabus de outros pontos de vista para fazer uma “desconstrução” deste tabu. Precisamos reavaliar as questões culturais todas para que não cometamos injustiças.
      Concordo com você sobre a questão da laqueadura. Por que é necessário que as mulheres já tenham filhos ou preencham uma série de requisitos para que possam fazer com seus corpos o que quiserem, como evitar uma gravidez indesejada. Ainda, infelizmente, impera na sociedade o pensamento de que a mulher é feita para ter filhos e procriar.
      Mas é com muita informação, textos, debates e notícias que poderemos descontruir estes pensamentos retrógrados e antiquados. Continuamos na luta!
      beijos
      Adriana

    • Didi 12/12/2014 às 14:17 #

      Oi Gabriela, que delícia de proposta! Vou ler seu texto. Obrigada por comentar e fomentar ainda mais o debate!

  2. naoseriapravoceeagora 08/09/2016 às 13:53 #

    Republicou isso em A PESCADORA .

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