13 de março não é um dia qualquer para que possamos repeti-lo

Se março deve ser considerado um mês de manifestações e perseguições políticas, temo pelo que pode vir pela frente. 13 de março também marca nossa história em diversas épocas e noites anteriores parecem também trazer enormes surpresas. Em um cenário político cada vez mais polarizado e violento, esquerda e direita se acirrando, crise política sem precedentes agravando a crise econômica e as elites raivosas com conquistas recentes de classes mais baixas, a manifestação da direita marcada para a tarde de um mesmo 13 de março pode trazer coincidências em seu arcabouço que colocam em cheque a democracia e a estabilidade de um governo, mais uma vez.

São Paulo, 12 de março de 2016.

Amanhece e as notícias que chegam não parecem ser boas: uma reunião no sindicato dos metalúrgicos do ABC em Diadema foi invadida na noite anterior por policiais armados, que queriam checar o que estava acontecendo no local, que foi cercado por diversas viaturas e policiais militares duramente armados. Era mais uma reunião pacífica e em defesa do ex-presidente Lula e ex-sindicalista, metalúrgico, que tem sido duramente atacado pela mídia e pelas instituições jurídicas que deveriam salvaguardar a ordem e a democracia.

O dia passa e mais notícias – tão chocantes quanto a primeira – chegam: sede da União Nacional dos Estudantes em São Paulo foi pichada atacando Lula e os estudantes, que travam há meses uma dura batalha contra o Governador Geraldo Alckmin, a reorganização escolar e contra denúncias de desvio de verbas da merenda escolar, que não tem o mesmo rigor na apuração das denúncias quanto na apuração das denúncias não confirmadas sobre o envolvimento de Lula na Operação Lava Jato e de uma suposta compra de um apartamento no Guarujá é um sítio em Atibaia.. No entanto, Lula já foi levado a depor de forma coercitiva e teve sua prisão decretada por promotores do Ministério Público, que sequer investigam o caso sob sua Júdice do desvio de verba da merenda escolar e ignoram o fato de que crianças passam o dia a bolacha de água e sal e suco.

Sedes de partidos políticos como PCdoB e PSOL também foram atacas e pichadas.

Enquanto escrevo este texto, é noite. Enquanto o céu está carregado de nuvens, carreto comigo as incertezas do que está por vir. Amanhã é 13 de março e a Avenida Paulista será palco de uma manifestação chamada pela direita em prol de um impeachment, que não tem base legal de sustentação e está sustentado em ideais golpistas como outros 13 de março já carregaram.

Rio de Janeiro, 13 de março de 1831.

Não havia sequer um regime democrático.. No entanto, a data é marcante e faz parte do primeiro golpe no Brasil, que já era constitucionalista e independente de Portugal, mesmo que sob o comando do conservador Imperador Português Dom Pedro I.

Conhecida como a noite das garrafadas, o primeiro 13 de março marcante da história brasileira teve como cenário o ataque dos revoltosos liberais aos portugueses que haviam preparado uma festa de boas vindas ao imperador no Rio de Janeiro, após viagens a Minas Gerais, que tinham como objetivo acalmar a população contra seu governo – ação que mostrou-se fracassada não só em sua viagem como em seu regresso. O ataque antecedeu a possível comemoração à chegada do Imperador.

D. Pedro tentou conter a situação, mas sem sucesso acabou abdicando do trono em favor de seu filho. Como tinha apenas 5 anos, instaura-se no Brasil o Período Regencial, que tem como objetivo maior garantir que o Dom Pedro II assuma quando tiver idade – o que aconteceu 9 anos depois.

Rio de Janeiro, 13 de março de 1964.

João Goulart realiza o primeiro comício para pressionar o Congresso Nacional para efetivar as reformas de base prometidas para seu governo através do apoio da opinião pública, enchendo as elites de medo já que 150 mil pessoas apoiavam o discurso de Goulart e Brizola por reformas urbanas e taxação de grandes fortunas.

Neste dia, deu-se o início ao golpe que terminou em 1o de abril. A partir deste dia, uma séria de manifestações públicas das elites brasileiras pregavam o anticomunismo e apoio à intervenção militar na democracia.

Entre os principais acontecimentos estão: principais cidades tomadas por soldados armados, militares incendiando a sede da UNE e associações que apoiavam Goulart, como partidos políticos e sindicatos, invadidas por soldados. Além disso, parte da imprensa escrita e a TV Globo conduziram a campanha ao golpe ao convencer as pessoas de que Jango implantaria um governo comunista como o de Cuba ou da China.

Dez anos antes, o plano que aumentou em 100% o salário mínimo também contrariou grande parte da elite brasileira.

O segundo e último comício de Jango aconteceu em 30 de março e desencadeou uma marcha militar sob o comando do general Mourão Filho e deu início na noite do dia 31 ao golpe militar, que terminou em 1o de abril.

São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte é demais capitais brasileiras, 13 de março de 2015.

Antecedendo-se às manifestações da direita e que pedem pelo impeachment da Presidenta Dilma, democraticamente eleita por 56 milhões de votos em 2014, centrais sindicais e movimentos sociais se unem em uma manifestação do Dia Nacional de Lutas, que causou polêmica na imprensa e conflitos de dados divergentes sobre o número de participantes. Como sempre, a organização alega um número muito maior do que o divulgado pela imprensa ou pela polícia militar.

Tais medições (ou seria distorções) ficam ainda mais evidentes dois dias depois, quando o mesmo cálculo atesta um número maior do que a conta anterior permitiria apenas para superestimar a manifestação da direita.

Com o apoio da imprensa, a manifestação da direita ocorrida no dia 15 de março tem cobertura exaustiva e com inserções ao vivo durante todo o dia e pedem por diversas causas desde o fim da corrupção até a intervenção militar e a volta da ditadura. Pautas tão diversas quanto incabíveis, pois mesmo em 2015 o Brasil ainda não puniu os crimes da ditadura e nem encontrou todos os desaparecidos políticos do regime de exceção que vigorou no país por 21 anos. No entanto, a história e as consequências que carregamos parecem não importar grupos políticos insatisfeitos com o resultados das urnas.

São Paulo, 13 de março.

Apoio da imprensa em ataques ao governo e à esquerda, descontentamento das elites com o aumento do salário mínimo e da ascensão das classes baixas, pressão do Congresso Nacional contra manutenção de políticas sociais e sistemáticos ataques aos direitos garantidos, pedidos de intervenção militar, desrespeito do judiciário a legislação e a democracia, ataques sistemáticos ao governo, ataques a entidades de esquerda e de apoio ao governo. Não, não estamos de volta a 1964 ou a 1831. Estamos em 2016. Uma manifestação em nível nacional foi convocada em prol de um impeachment novamente.

Legalmente não existem bases de sustentação para ele. Ainda assim, a direita e seus representantes políticos, que ironicamente estão envolvidos em diversos casos de corrupção, pedem por seu fim. Não sei do que será deste dia quando amanhecer e quando terminar, mas tenho convicção que estamos nos afastando cada vez mais do Estado Democrático de Direito e, ao mesmo tempo, nos aproximando demais de repetir o que já aconteceu neste mesmo país, nesta mesma data, em vésperas de golpes.

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