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Carta a um presidente machista

9 mar

Caro Ilegítimo Presidente Michel Temer,

Ontem foi o Dia Internacional da Mulher e milhares de mulheres saíram às ruas em todo o mundo – e em diversas cidades brasileiras – contra a misoginia, o machismo e o patriarcado. Particularmente no Brasil, as mulheres ainda se posicionaram contra a reforma previdenciária proposta por você, que equipara a idade das mulheres e dos homens para se aposentar, ignorando a dupla jornada e as dificuldades que nós enfrentamos no mercado de trabalho.

Por isso, gostaria de rebater alguns pontos de sua fala, que tive a felicidade de não assistir neste dia de luta.

Você disse: “Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela [Temer], do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher”

Pois bem, eu lhe digo que o senhor tem infelizmente bastante razão. A mulher faz muito mais pela casa porque é assim que a sociedade machista se comporta, responsabilizando a mulher pelo cuidado da casa e dos filhos e se ocupando dos deveres do lar enquanto o homem deve se ocupar da vida pública e do trabalho como se não tivesse nenhuma obrigação e dever de também cuidar da casa e dos filhos. Seguramente se responsabilizar pela casa e pelos filhos quem faz não é homem. Dados indicam que enquanto as mulheres dedicam de 20 horas a 25 horas semanais com os afazeres domésticos, os homens dedicam apenas de 8 horas a 9 horas semanais. Além disso, as mulheres são a minoria em cargos públicos. No Congresso Nacional, as mulheres são 10% das deputadas federais e 16% das senadoras. Aliás, a composição de seu ministério também mostra que, para vocês machistas, a política não é lugar de mulher, afinal você extinguiu o Ministério das Mulheres e nomeou apenas duas mulheres para cargos ministeriais. É também por isso que fomos às ruas ontem. Não acreditamos e não defendemos esta sociedade, queremos direitos e deveres iguais e, portanto, somos a favor de que homens e mulheres tenham a mesma responsabilidade com os cuidados da casa e dos filhos. Queremos que as responsabilidades sejam compartilhadas e que o Estado também faça sua parte com escolas e creches públicas para que homens e mulheres possam estar no mercado de trabalho em igualdade.

Para você, a mulher é “capaz de indicar os desajustes de preços em supermercados” e “identificar flutuações econômicas no orçamento doméstico”.

Mas somos capazes de muito mais. Somos capazes de criar filhos sozinhas quando homens deixam de lado seu dever paterno, somos capazes de ser pintoras, cientistas, engenheiras, jornalistas, mães, donas de casa, advogadas e o que quisermos ser e é assim que queremos que seja: que nós possamos ser o que quisermos porque somos capazes e queremos também sermos livres para decidir e escolher.

Você afirmou que “Na economia, também, a mulher tem uma grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados mais do que a mulher. Ninguém é capaz melhor de identificar eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor”.

Sim, temos grande participação na economia e compomos metade da força de trabalho no mundo, sabia? E entendemos muito mais do que desajustes de preços no supermercado, como já disse. Além disso, este papel que você nos atribui não é o único papel que somos capazes e nem é o único papel que nós mulheres queremos desempenhar.

Segundo você, “além de cuidar dos afazeres domésticos”, as mulheres têm cada vez mais chances de entrar no mercado de trabalho. “Tudo isso significa empregos e significa também que a mulher, além de cuidar dos afazeres domésticos, vai ver um campo cada mais largo para o emprego”.

Para você, as mulheres precisam continuar sendo oprimidas e executando jornadas duplas ou triplas porque além de entrarem no mercado de trabalho vamos continuar com a responsabilidade de cuidar dos afazeres domésticos. O senhor já ouviu falar em divisão das responsabilidades? É também por este motivo que fomos ontem às ruas.

Você disse que “homens e mulheres são igualmente empregados”. “Com algumas restrições”, ponderou. “Mas a gente vê o número de mulheres que comandam empresas”, completou o peemedebista.

E eu gostaria de saber: onde existe igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, uma vez que recebemos – em média – 30% a menos que os homens quando desempenhamos as mesmas funções nos mesmos cargos? As restrições existem e chamamos de machismo, preconceito e discriminação de gênero. E se o senhor vê o número de mulheres que comandam empresas ou que ocupam cargos públicos decisórios, como já mencionei anteriormente, deve ter notado o quão menor eles são em comparação aos homens. Nós, mulheres, sabemos a dificuldade de ascensão e promoção que temos no mercado de trabalho.

Você disse que as mulheres ainda são tratadas “como figuras de segundo grau em outras partes do mundo”. Segundo ele, elas “devem ocupar o primeiro grau em todas as sociedades”.

As mulheres não querem ocupar o primeiro grau e nem serem tratadas como figuras do segundo grau, queremos igualdade, dignidade, liberdade e fomos ontem às ruas em luta por estes direitos que são diária e paulatinamente negados no Brasil e em várias partes do mundo.

O senhor, por fim, citou o Plano Nacional de Segurança de seu governo que tem projetos específicos sobre o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. Para você, “Isso tudo é fruto do movimento das mulheres e da compreensão dos homens, digamos assim”, finalizou.

Digamos assim que você acha que o direito das mulheres é quase uma benevolência masculina, não é mesmo?

Honestamente, não poderíamos esperar muito de um presidente golpista, que tirou uma mulher da Presidência, mas nós mulheres não merecemos ouvir seu discurso machista em pleno dia de luta. Não merecemos ouvir em qualquer dia tal discurso. E lamentamos ter hoje você como presidente, com seu governo de homens brancos, machistas e que reforça diversos dos estereótipos que sofremos e lutamos diariamente para combater. Como mãe, mulher e trabalhadora, espero que discursos como o seu encontrem cada vez menos respaldo em nossa sociedade e sejam cada dia mais repudiados, condenados e ignorados.

Continuaremos em luta até que todas nós sejamos livres!