Carta a um presidente machista

9 mar

Caro Ilegítimo Presidente Michel Temer,

Ontem foi o Dia Internacional da Mulher e milhares de mulheres saíram às ruas em todo o mundo – e em diversas cidades brasileiras – contra a misoginia, o machismo e o patriarcado. Particularmente no Brasil, as mulheres ainda se posicionaram contra a reforma previdenciária proposta por você, que equipara a idade das mulheres e dos homens para se aposentar, ignorando a dupla jornada e as dificuldades que nós enfrentamos no mercado de trabalho.

Por isso, gostaria de rebater alguns pontos de sua fala, que tive a felicidade de não assistir neste dia de luta.

Você disse: “Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela [Temer], do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher”

Pois bem, eu lhe digo que o senhor tem infelizmente bastante razão. A mulher faz muito mais pela casa porque é assim que a sociedade machista se comporta, responsabilizando a mulher pelo cuidado da casa e dos filhos e se ocupando dos deveres do lar enquanto o homem deve se ocupar da vida pública e do trabalho como se não tivesse nenhuma obrigação e dever de também cuidar da casa e dos filhos. Seguramente se responsabilizar pela casa e pelos filhos quem faz não é homem. Dados indicam que enquanto as mulheres dedicam de 20 horas a 25 horas semanais com os afazeres domésticos, os homens dedicam apenas de 8 horas a 9 horas semanais. Além disso, as mulheres são a minoria em cargos públicos. No Congresso Nacional, as mulheres são 10% das deputadas federais e 16% das senadoras. Aliás, a composição de seu ministério também mostra que, para vocês machistas, a política não é lugar de mulher, afinal você extinguiu o Ministério das Mulheres e nomeou apenas duas mulheres para cargos ministeriais. É também por isso que fomos às ruas ontem. Não acreditamos e não defendemos esta sociedade, queremos direitos e deveres iguais e, portanto, somos a favor de que homens e mulheres tenham a mesma responsabilidade com os cuidados da casa e dos filhos. Queremos que as responsabilidades sejam compartilhadas e que o Estado também faça sua parte com escolas e creches públicas para que homens e mulheres possam estar no mercado de trabalho em igualdade.

Para você, a mulher é “capaz de indicar os desajustes de preços em supermercados” e “identificar flutuações econômicas no orçamento doméstico”.

Mas somos capazes de muito mais. Somos capazes de criar filhos sozinhas quando homens deixam de lado seu dever paterno, somos capazes de ser pintoras, cientistas, engenheiras, jornalistas, mães, donas de casa, advogadas e o que quisermos ser e é assim que queremos que seja: que nós possamos ser o que quisermos porque somos capazes e queremos também sermos livres para decidir e escolher.

Você afirmou que “Na economia, também, a mulher tem uma grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados mais do que a mulher. Ninguém é capaz melhor de identificar eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor”.

Sim, temos grande participação na economia e compomos metade da força de trabalho no mundo, sabia? E entendemos muito mais do que desajustes de preços no supermercado, como já disse. Além disso, este papel que você nos atribui não é o único papel que somos capazes e nem é o único papel que nós mulheres queremos desempenhar.

Segundo você, “além de cuidar dos afazeres domésticos”, as mulheres têm cada vez mais chances de entrar no mercado de trabalho. “Tudo isso significa empregos e significa também que a mulher, além de cuidar dos afazeres domésticos, vai ver um campo cada mais largo para o emprego”.

Para você, as mulheres precisam continuar sendo oprimidas e executando jornadas duplas ou triplas porque além de entrarem no mercado de trabalho vamos continuar com a responsabilidade de cuidar dos afazeres domésticos. O senhor já ouviu falar em divisão das responsabilidades? É também por este motivo que fomos ontem às ruas.

Você disse que “homens e mulheres são igualmente empregados”. “Com algumas restrições”, ponderou. “Mas a gente vê o número de mulheres que comandam empresas”, completou o peemedebista.

E eu gostaria de saber: onde existe igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho, uma vez que recebemos – em média – 30% a menos que os homens quando desempenhamos as mesmas funções nos mesmos cargos? As restrições existem e chamamos de machismo, preconceito e discriminação de gênero. E se o senhor vê o número de mulheres que comandam empresas ou que ocupam cargos públicos decisórios, como já mencionei anteriormente, deve ter notado o quão menor eles são em comparação aos homens. Nós, mulheres, sabemos a dificuldade de ascensão e promoção que temos no mercado de trabalho.

Você disse que as mulheres ainda são tratadas “como figuras de segundo grau em outras partes do mundo”. Segundo ele, elas “devem ocupar o primeiro grau em todas as sociedades”.

As mulheres não querem ocupar o primeiro grau e nem serem tratadas como figuras do segundo grau, queremos igualdade, dignidade, liberdade e fomos ontem às ruas em luta por estes direitos que são diária e paulatinamente negados no Brasil e em várias partes do mundo.

O senhor, por fim, citou o Plano Nacional de Segurança de seu governo que tem projetos específicos sobre o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. Para você, “Isso tudo é fruto do movimento das mulheres e da compreensão dos homens, digamos assim”, finalizou.

Digamos assim que você acha que o direito das mulheres é quase uma benevolência masculina, não é mesmo?

Honestamente, não poderíamos esperar muito de um presidente golpista, que tirou uma mulher da Presidência, mas nós mulheres não merecemos ouvir seu discurso machista em pleno dia de luta. Não merecemos ouvir em qualquer dia tal discurso. E lamentamos ter hoje você como presidente, com seu governo de homens brancos, machistas e que reforça diversos dos estereótipos que sofremos e lutamos diariamente para combater. Como mãe, mulher e trabalhadora, espero que discursos como o seu encontrem cada vez menos respaldo em nossa sociedade e sejam cada dia mais repudiados, condenados e ignorados.

Continuaremos em luta até que todas nós sejamos livres!

13 de março não é um dia qualquer para que possamos repeti-lo

13 mar

Se março deve ser considerado um mês de manifestações e perseguições políticas, temo pelo que pode vir pela frente. 13 de março também marca nossa história em diversas épocas e noites anteriores parecem também trazer enormes surpresas. Em um cenário político cada vez mais polarizado e violento, esquerda e direita se acirrando, crise política sem precedentes agravando a crise econômica e as elites raivosas com conquistas recentes de classes mais baixas, a manifestação da direita marcada para a tarde de um mesmo 13 de março pode trazer coincidências em seu arcabouço que colocam em cheque a democracia e a estabilidade de um governo, mais uma vez.

São Paulo, 12 de março de 2016.

Amanhece e as notícias que chegam não parecem ser boas: uma reunião no sindicato dos metalúrgicos do ABC em Diadema foi invadida na noite anterior por policiais armados, que queriam checar o que estava acontecendo no local, que foi cercado por diversas viaturas e policiais militares duramente armados. Era mais uma reunião pacífica e em defesa do ex-presidente Lula e ex-sindicalista, metalúrgico, que tem sido duramente atacado pela mídia e pelas instituições jurídicas que deveriam salvaguardar a ordem e a democracia.

O dia passa e mais notícias – tão chocantes quanto a primeira – chegam: sede da União Nacional dos Estudantes em São Paulo foi pichada atacando Lula e os estudantes, que travam há meses uma dura batalha contra o Governador Geraldo Alckmin, a reorganização escolar e contra denúncias de desvio de verbas da merenda escolar, que não tem o mesmo rigor na apuração das denúncias quanto na apuração das denúncias não confirmadas sobre o envolvimento de Lula na Operação Lava Jato e de uma suposta compra de um apartamento no Guarujá é um sítio em Atibaia.. No entanto, Lula já foi levado a depor de forma coercitiva e teve sua prisão decretada por promotores do Ministério Público, que sequer investigam o caso sob sua Júdice do desvio de verba da merenda escolar e ignoram o fato de que crianças passam o dia a bolacha de água e sal e suco.

Sedes de partidos políticos como PCdoB e PSOL também foram atacas e pichadas.

Enquanto escrevo este texto, é noite. Enquanto o céu está carregado de nuvens, carreto comigo as incertezas do que está por vir. Amanhã é 13 de março e a Avenida Paulista será palco de uma manifestação chamada pela direita em prol de um impeachment, que não tem base legal de sustentação e está sustentado em ideais golpistas como outros 13 de março já carregaram.

Rio de Janeiro, 13 de março de 1831.

Não havia sequer um regime democrático.. No entanto, a data é marcante e faz parte do primeiro golpe no Brasil, que já era constitucionalista e independente de Portugal, mesmo que sob o comando do conservador Imperador Português Dom Pedro I.

Conhecida como a noite das garrafadas, o primeiro 13 de março marcante da história brasileira teve como cenário o ataque dos revoltosos liberais aos portugueses que haviam preparado uma festa de boas vindas ao imperador no Rio de Janeiro, após viagens a Minas Gerais, que tinham como objetivo acalmar a população contra seu governo – ação que mostrou-se fracassada não só em sua viagem como em seu regresso. O ataque antecedeu a possível comemoração à chegada do Imperador.

D. Pedro tentou conter a situação, mas sem sucesso acabou abdicando do trono em favor de seu filho. Como tinha apenas 5 anos, instaura-se no Brasil o Período Regencial, que tem como objetivo maior garantir que o Dom Pedro II assuma quando tiver idade – o que aconteceu 9 anos depois.

Rio de Janeiro, 13 de março de 1964.

João Goulart realiza o primeiro comício para pressionar o Congresso Nacional para efetivar as reformas de base prometidas para seu governo através do apoio da opinião pública, enchendo as elites de medo já que 150 mil pessoas apoiavam o discurso de Goulart e Brizola por reformas urbanas e taxação de grandes fortunas.

Neste dia, deu-se o início ao golpe que terminou em 1o de abril. A partir deste dia, uma séria de manifestações públicas das elites brasileiras pregavam o anticomunismo e apoio à intervenção militar na democracia.

Entre os principais acontecimentos estão: principais cidades tomadas por soldados armados, militares incendiando a sede da UNE e associações que apoiavam Goulart, como partidos políticos e sindicatos, invadidas por soldados. Além disso, parte da imprensa escrita e a TV Globo conduziram a campanha ao golpe ao convencer as pessoas de que Jango implantaria um governo comunista como o de Cuba ou da China.

Dez anos antes, o plano que aumentou em 100% o salário mínimo também contrariou grande parte da elite brasileira.

O segundo e último comício de Jango aconteceu em 30 de março e desencadeou uma marcha militar sob o comando do general Mourão Filho e deu início na noite do dia 31 ao golpe militar, que terminou em 1o de abril.

São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte é demais capitais brasileiras, 13 de março de 2015.

Antecedendo-se às manifestações da direita e que pedem pelo impeachment da Presidenta Dilma, democraticamente eleita por 56 milhões de votos em 2014, centrais sindicais e movimentos sociais se unem em uma manifestação do Dia Nacional de Lutas, que causou polêmica na imprensa e conflitos de dados divergentes sobre o número de participantes. Como sempre, a organização alega um número muito maior do que o divulgado pela imprensa ou pela polícia militar.

Tais medições (ou seria distorções) ficam ainda mais evidentes dois dias depois, quando o mesmo cálculo atesta um número maior do que a conta anterior permitiria apenas para superestimar a manifestação da direita.

Com o apoio da imprensa, a manifestação da direita ocorrida no dia 15 de março tem cobertura exaustiva e com inserções ao vivo durante todo o dia e pedem por diversas causas desde o fim da corrupção até a intervenção militar e a volta da ditadura. Pautas tão diversas quanto incabíveis, pois mesmo em 2015 o Brasil ainda não puniu os crimes da ditadura e nem encontrou todos os desaparecidos políticos do regime de exceção que vigorou no país por 21 anos. No entanto, a história e as consequências que carregamos parecem não importar grupos políticos insatisfeitos com o resultados das urnas.

São Paulo, 13 de março.

Apoio da imprensa em ataques ao governo e à esquerda, descontentamento das elites com o aumento do salário mínimo e da ascensão das classes baixas, pressão do Congresso Nacional contra manutenção de políticas sociais e sistemáticos ataques aos direitos garantidos, pedidos de intervenção militar, desrespeito do judiciário a legislação e a democracia, ataques sistemáticos ao governo, ataques a entidades de esquerda e de apoio ao governo. Não, não estamos de volta a 1964 ou a 1831. Estamos em 2016. Uma manifestação em nível nacional foi convocada em prol de um impeachment novamente.

Legalmente não existem bases de sustentação para ele. Ainda assim, a direita e seus representantes políticos, que ironicamente estão envolvidos em diversos casos de corrupção, pedem por seu fim. Não sei do que será deste dia quando amanhecer e quando terminar, mas tenho convicção que estamos nos afastando cada vez mais do Estado Democrático de Direito e, ao mesmo tempo, nos aproximando demais de repetir o que já aconteceu neste mesmo país, nesta mesma data, em vésperas de golpes.

Os objetivos do desenvolvimento sustentável

7 out

Na faculdade, tinha uma matéria que se chamava Projeto Interdisciplinar e tinha como objetivo apresentar um trabalho (prático ou teórico) com temas a escolha dos alunos, que eram misturados em mais de uma habilitação e trabalhavam em grupos.

Em um destes trabalhos, fizemos trabalhos temáticos sobre os objetivos do milênio, da ONU. Lembro-me, parcamente, que cada um fez um trabalho sobre um dos desenvolvimentos. Era, ainda, início da faculdade e, nesta época, ainda gostava de tudo e de qualquer coisa que envolvesse o jornalismo. Não sabia, ainda, que enveredaria para a área mais social. No entanto, desde este trabalho tem “queda” pelos desenvolvimentos do milênio.

Se você der uma busca por aqui, muito provavelmente encontrará muitas matérias falando sobre eles. O alcance das metas e etc.

Acontece que este ano, a ONU lançou novas metas a serem alcançadas pelos países-membros já que os Objetivos do Milênio tinham meta até este ano. Os (novos) Objetivos de Desenvolvimento Sustentável possuem 17 objetivos com 169 metas – os objetivos possuem um conjunto de medidas que devem ser adotados para que ele seja realmente alcançado de forma plena.

As ações mundiais, que terão prazo de 15 anos para serem alcançadas, tratam de erradicação da pobreza, segurança alimentar, agricultura, saúde, educação, igualdade de gênero, redução das desigualdades, energia, água e saneamento, padrões sustentáveis de produção e de consumo, mudança do clima, cidades sustentáveis, proteção e uso sustentável dos oceanos e dos ecossistemas terrestres, crescimento econômico inclusivo, infraestrutura, industrialização, entre outros.

Os temas podem ser divididos em quatro dimensões principais:

Social: relacionada às necessidades humanas, de saúde, educação, melhoria da qualidade de vida, justiça.

Ambiental: trata da preservação e conservação do meio ambiente, com ações que vão da reversão do desmatamento, proteção das florestas e da biodiversidade, combate à desertificação, uso sustentável dos oceanos e recursos marinhos até a adoção de medidas efetivas contra mudanças climáticas.

Econômica: aborda o uso e o esgotamento dos recursos naturais, produção de resíduos, consumo de energia, entre outros.

Institucional: diz respeito às capacidades de para colocar em prática os ODS.

No Facebook, para divulgar os novos objetivos do desenvolvimento sustentável, está acontecendo uma ação de promoção do objetivo que as pessoas mais se identificam. Eu escolhi “Alcançar a igualdade de gênero”, que é o objetivo número 5.

E você, com qual se identifica? Entre no site (clique aqui) e compartilhe seu objetivo preferido. O próprio site permite que você compartilhe o objetivo de sua escolha, basta clicar sobre ele. No site você também poderá ler mais sobre cada objetivo, suas metas específicas, ver o histórico e conhecer sobre a perspectiva brasileira em cada objetivo. Vale a pena acessar, ler, se informar e, quem sabe, trabalhar pelo alcance das metas. Afinal, se a mudança não começar por nós, ela não começará nunca!

A operação lava-jato e a lógica tostines

6 fev

Uma antiga propaganda da bolacha tostines (só no começo do texto já entreguei a idade e a paulistanice) fazia a seguinte pergunta retórica: vende mais porque é mais fresquinho ou é mais fresquinhos porque vende mais?

Hoje assistindo ao Jornal Nacional (coisa que nunca faço) me deparei com esta questões. Alguns depoimentos me fizeram pensar justamente nesta retórica. Afinal, agora todo mundo se defende e tem empresa dizendo que só pagou porque sem o pagamento não poderia executar o serviço.
Então, adoto a lógica tostines e pergunto: existe cobrador de propina (corruptor) porque existe pagador (corruptível) ou existe pagador (corruptível) porque existe cobrador (corruptor)?

Se alguém faz errado não significa que você deva fazer ou aceitar e errar junto. Afinal, se qualquer empresa tiver que pagar x para se beneficiar com y tenha certeza que y = 2x ou mais. Ou seja, ela não aceita nenhum esquema que seja ruim para ela. Ela não entra em um jogo que não seja para ganhar.

Mas agora todos são santos. Tanto quem cobrou quanto quem pagou, afinal agora a retórica tostines está em cena e enquanto empresas dizem que só pagaram porque cobraram do outro lado os diretores da Petrobras afirmam que só receberam porque as empresas pagaram. A verdade é que um pagou e não devia o que o outro cobrou e também não devia, mas em terra de delação premiada quem conta meia verdade é rei!

Precisamos falar sobre aborto

27 nov

Ser a favor do aborto não quer dizer que vou fazer um. Ser a favor do aborto não quer dizer que todas as mulheres farão, devem fazer ou serão obrigadas a fazê-lo. Ser a favor do aborto quer dizer tão somente que quem optar por fazê-lo – e seja lá por qual motivo for – poderá realizá-lo em segurança e com condições dignas para que não morra em decorrência deste procedimento médico.

Para mim, ser a favor do aborto quer dizer ter menos crianças no mundo vivendo em condições de desamor ou desamparo; em abrigos ou abandonadas esperando que um outro alguém queira adotá-lo e amá-lo como quem o pariu não fez porque não queria e não teve opções de evitá-lo ou não conseguiu por N motivos. Ser a favor do aborto, para mim, é dar à mulher a opção de escolha entre gerar uma vida não desejada ou seguir sua vida sem carregar este peso por nove meses, pelo resto da vida ou, como acontece, ter sua vida interrompida porque decidiu interromper a gestação em situações que não são hoje adequadas e suficientes. Para mim, ser a favor do aborto é amparar esta mulher não somente em sua decisão como dar condições de que esta decisão seja levada adiante com o apoio médico necessário e também com todo o apoio psicológico que a situação requer. Ser a favor do aborto, para mim, é uma questão de saúde pública, de direito humano da mulher, de opção e opinião individual e não interfere na vida de mais ninguém.

Muitas pessoas se posicionam contra por diversos motivos e, principalmente, os religiosos. Então, pergunto: é melhor uma mulher morrer ou abortar? É melhor uma criança a menos no mundo ou uma criança nascer com sérios problemas devido aos abortos insucedidos? É melhor ter uma criança a menos no mundo ou uma criança a mais, mal amada e sem o apoio e atenção necessários? É melhor uma mulher feliz ou levando uma gravidez indesejada e gerando uma criança infeliz e traumatizada desde a gestação? É melhor uma sociedade promotora dos direitos humanos e respeitando a opinião individual e decisão de cada uma ou impondo que mulheres morram, corram risco de vida e sejam frustradas? É melhor garantir ou se omitir?

Claramente o ideal seria que as gravidezes fossem então evitadas desde o início, mas esta não pode ser a única opção. Não podemos deixar que mulheres com menos condições sociais e econômicas estejam mais sujeitas a sofrerem com a falta de políticas públicas eficientes e que as garantam, ao menos, poder de decisão do que as mulheres que possuem mais condições e, com isso, possam recorrer a abortos em clínicas mais preparadas e com mais condições ou que recorram a abortos em países que os autorize enquanto a maioria da população sofre com o descaso do poder público por considerar opiniões religiosas. O Estado deve ser laico (ou seja, não deve ser intervisto por regras e preceitos religiosos) e, no meu entender, deve ser promotor de direitos.

Por que a mulher não pode ter o direito sobre seu próprio corpo quando o assunto é gravidez e reprodução, mas tem direito sobre seu próprio corpo quando o assunto é plástica ou qualquer outra intervenção médica/estética? O direito ao corpo é individual e deve ser sempre respeitado.

Por vezes nos vemos criticando práticas internacionais que afetam mulheres ao redor do mundo e estão ligadas a uma cultura que não nos pertence, mas pouco questionamos sobre as próprias práticas. Enquanto apontamos o dedo para os mulçumanos de esconder suas mulheres sob véus e dos africanos e asiáticos em praticar mutilação genital fechamos os olhos para nossas próprias práticas arraigadas em argumentos ultrapassados e tão ligados à cultura, tradição e religião quanto eles fazem. Não acredito que obrigar o uso de véu ou mutilar mulheres seja algo positivo ou válido em qualquer cultura, mas tão pouco acredito que obrigar mulheres a gerar e parir por motivos religiosos seja de alguma forma válida somente por estar ligada à nossa cultura/tradição.

Se precisamos avançar em muitas questões culturais ultrapassando as barreiras impostas pela tradição e pelos bons costumes, precisamos também falar sobre o aborto. Você não precisa concordar com a prática e tão pouco precisa praticá-lo, precisamos apenas considerar a opinião de cada uma, respeitá-las e, principalmente, dar condições para que quem deseja possa realizá-lo em condições. E aí, vamos falar sobre aborto?

Lei Maria da Penha – quando a mídia violenta

24 jul

Que papel tem a imprensa para com a garantia dos direitos humanos e para acabar com os estereótipos vigentes na sociedade de forma a contribuir com o fim da violência doméstica?

A Constituição Federal brasileira afirma em seu artigo 221 que as emissoras de rádio e televisão atenderão os princípios de “IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.” Embora a legislação restrinja o respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família às emissoras de rádio e televisão, fica subentendido a toda sociedade – e pelo histórico papel da imprensa escrita – de que jornais e revistas também possuem claramente um papel social fundamental na construção de uma sociedade justa e digna.

A Lei Maria da Penha, sancionada em agosto de 2006, prevê papel distinto para a comunicação social como fator auxiliar na extinção dos estereótipos que resultam na violência doméstica, conforme inciso III do artigo 8o:

Art. 8o A política pública que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher far-se-á por meio de um conjunto articulado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais, tendo por diretrizes: (…)

III – o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar, de acordo com o estabelecido no inciso III do art. 1o, no inciso IV do art. 3O e no inciso IV do art. 221 da Constituição Federal;

Para verificar se a mídia impressa cumpria o papel determinado pela Lei Maria da Penha, pesquisei as matérias sobre violência doméstica veiculadas no jornal O Estado de S. Paulo durante sete anos da vigência da lei, ou seja, de 22 de setembro de 2006 a 22 de setembro de 2013 e pude constatar que, além de o jornal veicular muito pouco sobre violência doméstica em comparação ao total de notícias publicadas, o jornal não contribui para a extinção dos estereótipo que resultam na violência doméstica ou para a difusão, divulgação e promoção da Lei Maria da Penha.

Resultados

Em sete anos, o jornal O Estado de S. Paulo publicou 83 notícias sobre violência doméstica. Em 51 delas, o jornal abordou a lei Maria da Penha mostrando um índice alto que, em primeira análise, ultrapassava 60% das notícias.

A pesquisa constatou ainda que, ao longo dos anos, houve um discreto aumento na veiculação das notícias de violência doméstica ao passo que as notícias que abordaram a lei Maria da Penha tiveram significativos aumentos percentuais em relação o número de notícias veiculadas a cada ano, demonstrando que o passar dos anos seria algo extremamente positivo para que jornalistas e imprensa de um modo geral noticiassem mais sobre a legislação em vigor. Segundo a análise, após 2008, todos os anos analisados contam com mais da metade das matérias citando a lei.

Entre os tipos de matérias que mais tratam de violência doméstica e mais citam a Lei Maria da Penha, os números são bastante parecidos. Em um ranking, as matérias que tratam de violência domésticas são, respectivamente, notícias, artigos e notas. Já nas matérias de violência doméstica que citam a lei, as matérias mais usadas são, respectivamente, notícia, artigo e reportagem – o que demonstra que a reportagem por ter mais profundidade consegue informar mais e, consequentemente, aborda mais sobre a lei Maria da Penha do que as notas.

A pesquisa analisou ainda os tipos de fontes consultados em suas matéria, uma vez que esta informação é fundamental para entender como e sob que aspecto a imprensa trata a Lei Maria da Penha. Tanto nas matérias sobre violência doméstica quanto nas matérias que citam a Lei Maria da Penha, as autoridades ainda são maioria dos consultados. Assim como os especialistas ficam em segundo lugar e os documentos, em terceiro.

Ao analisar a qualidade das matérias veiculadas que citavam a lei, das 51 notícias, 34 (67%) foram consideradas positivas e 17 (33%) negativas. Com o passar dos anos, os números oscilavam e não seguiam qualquer padrão ascendente ou descendente, mas quase todos os anos tiveram mais de 50% das matérias veiculadas consideradas positivas – exceto o ano de 2013, que além de ter veiculado um número muito menor de notícias sobre violência doméstica, a maioria ainda foi considerada negativa pela pesquisa.

Apesar dos números parecerem animadores, vale destacar que das 83 notícias veiculadas, 51 tratavam da lei, mas apenas 34 (40%) contribuíram de alguma forma com informações sobre a lei e seus procedimentos, contribuindo de alguma maneira para a difusão da lei e a extinção da violência contra a mulher. Portanto, a pesquisa concluiu que a veiculação da Lei Maria da Penha no jornal O Estado de S. Paulo ainda está muito aquém do necessário para promover, divulgar e difundir a lei.

Além disso, a pesquisa ressaltou que tratar da violência doméstica, após a vigência da lei, sem citar citá-la ou fazendo de forma negativa é o mesmo que não coibir os papéis estereotipados que legitimam e exacerbam a violência doméstica e familiar através de um meio de comunicação social fazendo com a mídia seja mais um ator que corrobora com a manutenção do status quo e compactua com a violência doméstica.

 

Adriana Alves Franco, jornalista e especialista em jornalismo social

dialves@gmail.com

Manifesto somos todos humanos

30 abr

Milhões de pessoas em todo o mundo sofrem discriminação em seu local de trabalho devido a cor de sua pele. Seja no campo de futebol, no escritório de uma multinacional, no interior de uma loja ou em qualquer outro lugar, a discriminação é um fato.

 

O que sofreu Daniel Alves em campo no último domingo é o que acontece sistematicamente em muitos lugares ao redor do mundo. No entanto, na maioria dos outros casos, a situação está entre quatro paredes e não é transmitida ao vivo para o mundo todo, gerando reações imediatas que embora ganhem espaço e status pouco refletem na consciência, alteram o pensamento vigente ou nas ações praticadas pela sociedade como um todo.

 

Espero que o fato ocorrido no último domingo promova reflexão na sociedade e, principalmente, uma mudança positiva nas estruturas vigentes de tal maneira que possam culminar em mais negros em cargos de chefia, na equiparação salarial entre brancos e negros, na ascensão de negros na política e no fim da discriminação racial em qualquer maneira que exista e esteja em vigor na sociedade.